29/03/2023

Há uma calma aparente no pátio da Associação de Solidariedade da Zona das Fontainhas (ASZ Fontainhas), onde funciona o Centro de Atividades de Tempos Livres (CATL). O rebuliço da cidade é já ali ao lado, mas neste refúgio reina a tranquilidade. A conta gotas (e na esperança de que a chuva não apareça) vão surgindo algumas crianças. 

 

O espaço de trabalho está montado para a segunda sessão do projeto “Há Arte nas Fontainhas”, integrando o Programa de Arte Urbana do Porto. A orientação está a cargo do artista Godmess. 

 

A primeira sessão contou com as crianças do 1.º Ciclo. Hoje é a vez das mais crescidas. São cerca de 20, sentadas à mesa, mais calmas do que seria de imaginar, considerando a rebeldia típica dos adolescentes. 

 

Núria é das mais faladoras, toma conta da situação e ajuda na logística da sessão. “Se faltar alguém fica de pé. Chegasse a horas”. A curiosidade corre-lhe nas veias e quer saber se Godmess é um artista famoso.  

 

 

Godmess apresenta-se, dá uma pequena aula sobre o que é, afinal, a arte urbana, e sobre os vários murais que existem na cidade e lança-lhes o desafio “Querem pintar um mural?”. A resposta afirmativa vem sem hesitar, mas com ressalvas, porque “o difícil vai ser pensar”, atira Núria. 

 

É altura de passar para o papel o que gostavam de ver representado no mural. Com algum esforço, começam a surgir ideias: há referências ao rio, à ponte, ao metro, ao Estádio do Dragão e até às francesinhas. Mas o foco é a zona das Fontainhas e o que estas crianças gostavam de ver representado, como a Feira dos Passarinhos, a Vandoma e o símbolo do CATL. 

 

 

Luana tem 16 anos a diz estar a “gostar de descobrir novas coisas sobre o Porto e a visão que cada um tem sobre a cidade”. Gostava de ver neste mural o Palácio de Cristal, a Torre dos Clérigos e um elétrico. 

 

Logo ao lado está Tomás, de 13 anos, que explica o significado do que desenhou: “FNTS é uma espécie de abreviatura de Fontainhas”. O mais difícil será “pegar na lata do spray e conseguir pintar”. 

 

Os dois amigos gostariam que no final, quando o mural estiver concluído, “as pessoas dissessem que está bonito e que vissem que as pessoas daqui têm muita criatividade e fazem coisas bonitas”. 

 

 

Voltamos a Núria que, com 13 anos, diz estar a “gostar da atividade de hoje e de desenhar”, mas que não tem muito jeito. Na parede, “gostava que estivessem os nossos desenhos e o meu nome”, explica. Quando lhe perguntamos do que mais gosta na cidade, responde prontamente: “da comida!”. Vai passar para o papel o seu prato preferido: “a francesinha, mas sem ovo”.  

 

Maria Clara tem 11 anos e está a gostar de fazer desenhos. “O mais difícil vai ser passar para a parede estes desenhos, porque têm muito pormenor”, conta. Gostava que lá “estivessem coisas importantes sobre o Porto, e a Filipa… porque gostamos dela e ela é importante para nós”. 

 

Começar a história pelo início

 

Filipa Chiote é a diretora técnica da ASZ Fontainhas e explica-nos que o CATL tem 60 crianças entre os 6 e os 18 anos. Aqui, promovem-se várias atividades depois das aulas e durante as férias escolares. Contextualiza como surgiu a ideia deste projeto “que teve início com uma parceria com o arquiteto Francisco Spratley, que nos propôs fazermos este mural, com o objetivo de chamarmos a atenção para esta zona da cidade do Porto”. Na verdade, esta é a continuação de um projeto artístico que decorreu há dois anos, na mesma parede, com fotografias das crianças: o Inside Out Project. 

 

“Agora, o objetivo é fazermos algo mais duradouro, em que as nossas crianças participem do início ao fim do projeto, colaborando não só nas ideias, mas também na pintura do mural”, explica. 

 

 

Nesta instituição, o entusiamo pelo projeto é visível em todos os rostos, sobretudo porque “vão fazer uma coisa fora de portas, para a comunidade, que vai ser visível por todos e isto traz-lhes aquela sensação de pertença, de terem colaborado num projeto maior e poderem dizer que foram eles que o fizeram”, confessa Filipa. 

 

Com vista para o rio, Filipa acredita ser fundamental chamar a atenção para este local e “perceber-se que as Fontainhas existem, que há vida nas Fontainhas, que há problemas, que as crianças precisam de atenção, mas que há aqui muito valor”. 

 

Continuar a levar Arte às paredes das Fontainhas 

 

Reforçar o envolvimento e as relações positivas na comunidade, em particular entre os participantes no projeto, incentivar a preservação dos equipamentos e dos espaços comuns e revitalizar diferentes espaços públicos fazem parte de alguns conceitos chave deste projeto. 

 

 

Godmess acredita ser essencial continuar a trazer arte para a Alameda das Fontainhas e continuar a desenvolver atividades de contexto artístico para estes jovens e para a comunidade. A ideia é “envolvê-los do início ao fim do projeto: pensarem no que vão querer pintar, pensar na importância que isso tem e nas consequências que isso terá”, acrescenta. 

 

Sessões como esta são “importantes para que eles percebam que estes projetos, mais práticos, também têm uma componente mais parada, mais pensada, de reflexão. Que não é só chegar e pintar”, explica. 

 

Texto: Catarina Madruga

Fotos: Guilherme Oliveira 

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